EU SOU (o Cristo, o Filho do Deus Bendito?)
Ele, porém, guardou silêncio e nada respondeu. Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu Marcos 14:61-62
Uma das objeções mais comuns levantadas pelos céticos à divindade de Cristo é a ideia de que Jesus nunca afirmou ser Deus. Biblicament, existem várias maneiras de saber que Jesus é Deus. Ele aceitou adoração, possuía todos os atributos eternos de Deus, fez coisas que só Deus pode fazer e recebeu títulos de divindade, além de existirem mais de uma centena de profecias que se cumpriram na vida de Jesus identificando-0 como Cristo, o Filho de Deus.
Diante do Sinédrio, na calada da madrugada, Jesus é interrogado pelo sumo sacerdote. A cena é caótica: testemunhas falsas se contradizem, acusações se desfazem no ar, gritos ecoam no salão. E Jesus permanece em silêncio. Nenhum protesto, nenhuma defesa jurídica, nenhuma ironia. Apenas silêncio. Marcos registra: “Mas ele ficou calado e nada respondeu” (Mc 14:61a). Esse silêncio não é fraqueza, nem medo, nem estratégia de defesa. É dignidade soberana. É o cumprimento exato da profecia de Isaías 53:7: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como cordeiro foi levado ao matadouro e como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca.”
O silêncio de Jesus é uma das demonstrações mais impressionantes de domínio próprio na história da humanidade. Quando caluniado, ele não revida. Quando injustiçado, não se defende. Quando humilhado, não ameaça. Por quê? Porque ele não veio para ganhar um julgamento terreno; ele veio para cumprir um plano eterno. Seu silêncio não é resignação passiva; é obediência ativa à vontade do Pai. Ele sabe que aquele tribunal não é o tribunal final. Ele sabe que a cruz não é o fim. Por isso pode calar. Quem tem certeza do futuro pode se dar ao luxo de silenciar no presente.
Nós, porém, raramente conseguimos. Diante de uma crítica injusta, de uma fofoca, de uma acusação falsa nas redes sociais, nosso instinto é gritar, justificar, contra-atacar. Queremos ser compreendidos agora. Queremos justiça imediata. Jesus nos ensina outro caminho: há momentos em que o silêncio é mais eloquente que mil palavras. Há situações em que a melhor defesa da verdade é não rebaixar-se ao nível da mentira. Há injustiças diante das quais a única resposta digna é a confiança silenciosa de quem sabe que seu caso já foi ganho na instância superior.
Mas o silêncio de Jesus não é o fim da história. Chega o momento decisivo. O sumo sacerdote se levanta e faz a pergunta central de todo o Evangelho: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?” (Mc 14:61b). Agora o silêncio dá lugar à palavra mais ousada já pronunciada por lábios humanos. Jesus responde: “Jesus respondeu: — Eu sou, e vocês verão o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu.”Marcos 14:62 NAA
Com apenas duas palavras Jesus faz a reivindicação mais explosiva possível. “Eu Sou” não é apenas uma afirmação de messianidade; é o Nome divino revelado a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3:14). Jesus está dizendo, diante do mais alto tribunal religioso de Israel: “Eu sou o próprio Deus que libertou vocês do Egito, que deu a Lei no Sinai, que habitava no Santo dos Santos. Eu sou aquele que EU SOU.” Não há como ser mais claro. Não há como ser mais ofensivo para os ouvidos judaicos da época. Por isso o sumo sacerdote rasga as vestes e grita: “Blasfêmia!”
E não para aí. Jesus acrescenta uma segunda bomba profética: “Ele cita duas passagens do Antigo Testamento ao mesmo tempo: Salmo 110:1 (“Disse o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita”) e Daniel 7:13-14 (o Filho do Homem vindo com as nuvens, recebendo domínio eterno). Em outras palavras: “Vocês estão me julgando agora, mas um dia eu os julgarei. Vocês estão me condenando à morte, mas um dia eu voltarei em glória, sentado no trono do universo, e vocês mesmos verão.”
Caifás e o Sinédrio pensavam que estavam julgando Jesus. Na verdade, Jesus estava julgando eles. O tribunal se inverteu. O Réu se revela Juiz. O Condenado se anuncia Soberano. Aquele que está de pé, preso e cuspido, é o mesmo que um dia virá nas nuvens do céu. Essa é a ironia suprema do evangelho: na hora mais baixa de Jesus está a revelação mais alta de quem ele realmente é.
Aqui encontramos um dos temas mais profundos de todo o Novo Testamento: a majestade oculta de Cristo. Durante sua vida, Jesus escondeu sua glória sob o véu da humildade. Nasceu em estábulo, cresceu como carpinteiro, andou empoeirado pelas estradas da Galileia, foi traído por amigos, abandonado por discípulos, condenado por autoridades. Mas em raros momentos — no Monte da Transfiguração, na ressurreição, e aqui no julgamento — o véu se rasga, e vemos quem ele realmente é: o Senhor do universo.
Para nós, isso é conforto e advertência ao mesmo tempo. Conforto, porque significa que o Cristo que caminha conosco nas noites escuras é o mesmo que está assentado no trono. O Jesus que se cala diante das nossas acusações internas também é o que um dia dirá “Eu Sou” com autoridade que ninguém poderá contestar. O Salvador humilde que carregou nossa cruz é o Rei glorioso que voltará para julgar os vivos e os mortos.
A verdade é que aquele momento diante de Caifás se repete todos os dias. Cada vez que alguém ouve falar de Jesus e precisa responder à pergunta “Quem você diz que Eu sou?”, está vivendo seu próprio “julgamento”. Neutros não existem. Ou reconhecemos que Ele é o Filho do Deus Bendito, ou rasgamos as vestes e gritamos “blasfêmia”. Ou nos curvamos diante do “Eu Sou”, ou nos colocamos como juízes dele. E um dia — um dia que pode ser mais próximo do que imaginamos — o Filho do Homem voltará com as nuvens, e então não haverá mais silêncio. Só haverá adoração ou terror.
Portanto, Marcos 14:61-62 nos confronta com duas atitudes possíveis diante de Jesus:
- O caminho de Caifás: ouvir a reivindicação divina e rejeitá-la como arrogância intolerável.
- O caminho dos discípulos: ouvir o mesmo “Eu Sou” e responder como Tomé: “Senhor meu e Deus meu!”
O silêncio de Jesus nos ensina a confiar quando somos mal compreendidos. A palavra de Jesus nos lembra que a última palavra nunca será dos tribunais deste mundo. A profecia de Jesus nos chama a viver hoje à luz do amanhã glorioso. Porque um dia — e esse dia se aproxima — o Cordeiro mudo se tornará o Leão que ruge, o Réu humilhado se tornará o Juiz entronizado, e todo joelho se dobrará, na terra, no céu e debaixo da terra, e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
Que esse dia nos encontre entre os que já se entrgarão ao amor de Jesus, e não entre os que terão que se curvar. Somos aqueles que creram e obedeceram o mandamento de Jesus: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. Marcos 16:16
Amém!

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