COMO ESTÁ SUA VISÃO ESPIRITUAL?
A metáfora utilizada por Jesus no Sermão da Montanha, registrada em Mateus 6:22-23, é uma das mais profundas e desafiadoras para a existência humana. Ao declarar que "os olhos são a candeia do corpo", o Senhor não está fazendo uma afirmação sobre a saúde física da visão, mas sim sobre a nossa percepção interior, a lente espiritual através da qual interpretamos a realidade, Deus, o próximo e a nós mesmos. A pergunta que ecoa através dos séculos é a mesma que devemos nos fazer diariamente: como está a nossa vista? Estamos enxergando com os olhos da carne, limitados e corrompidos pelas trevas do mundo, ou com os olhos do Espírito, iluminados pela graça e pela verdade de Cristo?
A condição dos nossos olhos espirituais determina a qualidade de toda a nossa existência. Se a luz que há em nós são trevas, que grandes trevas são! Isso significa que podemos estar vivendo em uma escuridão profunda sem sequer perceber, achando que vemos, mas na verdade estando cegos para as realidades mais importantes. Esta reflexão nos convida a examinar como temos enxergado as camadas da nossa vida: a material e a espiritual, e como essa visão molda nosso caráter e nosso destino eterno.
O "olho bom" (ou "generoso", em algumas traduções) é aquele que vê o mundo a partir da perspectiva do Reino de Deus. É a capacidade de enxergar além da superfície, de discernir a mão de Deus em meio às circunstâncias e de valorizar o que é eterno em detrimento do que é passageiro. Quando nossos olhos são bons, todo o corpo é cheio de luz. Isso significa que nossas emoções, pensamentos, decisões e ações são iluminados pela presença de Deus.
Na prática, o olho bom se manifesta na gratidão. Na igreja, é a lente que vê primeiro a graça, os milagres e os testemunhos de transformação, em vez de focar-se unicamente nas fraquezas e quedas de alguns irmãos. Não se trata de ignorar o pecado ou o erro, mas de ter uma visão redentora, que acredita no poder de Deus para restaurar e que exalta a obra divina na vida das pessoas. É o olhar que edifica, que encoraja e que vê o potencial, porque aprendeu a olhar com os olhos de Cristo, que veio buscar e salvar o perdido.
Já no ambiente de trabalho, o olho bom é aquele que percebe a dedicação, o empenho e a lealdade de um colega, em vez de ressaltar apenas suas falhas. É a capacidade de ser grato por um ambiente laboral que provê o sustento e permite o convívio social, em vez de viver em constante murmuração. No lar, o olho bom é a lente que enxerga o cônjuge e os filhos como bênçãos e presentes de Deus, reconhecendo seu valor intrínseco, apesar das imperfeições. É o amor que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Coríntios 13:7), porque vê pelo prisma do compromisso e da aliança.
Ter o olho bom é, em essência, ter um coração puro e alinhado com a vontade de Deus. É a visão que busca primeiro o Reino e a sua justiça, confiando que o material será acrescentado (Mateus 6:33). É enxergar a provisão divina no pão de cada dia e a beleza da criação nas pequenas coisas.
Em contrapartida, o "olho mau" (ou "invejoso") é aquele que distorce a realidade, projetando sombras onde deveria haver luz. É a visão corrompida pelo pecado, pelo egoísmo e pela perspectiva mundana. Quando nossos olhos são maus, todo o corpo é cheio de trevas. A escuridão interior nos leva a interpretar tudo de forma negativa, crítica, cínica e destrutiva.
Esta visão adoecida pode se manifestar como "miopia espiritual", onde só conseguimos enxergar o que está imediatamente à nossa frente, as dificuldades, as necessidades materiais, os problemas urgentes, perdendo de vista o horizonte eterno e a soberania de Deus. Ou pode ser como uma "catarata espiritual", que embaça a nossa visão, tornando tudo turvo e confuso, impedindo-nos de discernir a verdade e a bondade divina. O "olho de azangar sabão", como diziam os antigos, é aquele que traz mau-olhado, que seca, que amaldiçoa, que vê o pior em tudo e em todos.
É o olho que, na igreja, realça as fraquezas alheias, fofoca sobre os erros dos outros e vive escandalizado com as imperfeições, esquecendo-se de que a igreja é um hospital de pecadores em restauração, não um museu de santos. No trabalho, é a lente que só vê a incompetência alheia, a falta de reconhecimento e as injustiças, gerando amargura e rivalidade. Na família, é o olho crítico e censurador, que vive apontando defeitos no cônjuge e nos filhos, incapaz de ver as bênçãos e a alegria que eles trazem. Na verdade é como diz um ditado popular: “o pior cego é aquele que não quer ver“. Faz questão de desvalorizar o trabalho, a dedicação, e o empenho do seu semelhante para fazer o bem.
A raiz do olho mau é frequentemente a inveja e a cobiça, conforme alerta 1 João 2:16: "Pois tudo o que há no mundo, a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens, não provém do Pai, mas do mundo". A cobiça dos olhos é esse desejo insaciável de possuir o que não se tem, de experimentar o que é proibido, de viver para o que é material e passageiro. Essa cobiça tolda a visão, fazendo-nos acreditar que a felicidade está no acúmulo de bens, no prazer imediato ou no status social. Passamos a ver as pessoas como objetos, os recursos como fins em si mesmos e a vida como uma competição.
A reflexão nos leva a uma questão crucial: se fôssemos chamados para testemunhar no tribunal de Cristo sobre o que temos visto e como temos interpretado a vida, seríamos testemunhas fiéis? O sábio conselho do pai que "não queria ser chamado para testemunha" sobre o que não viu nos ensina sobre a integridade de não julgar levianamente. No tribunal divino, não haverá espaço para suposições, más interpretações ou visões turvas. Deus sonda os corações e conhece a verdade integral.
Nossos olhos espirituais são as "testemunhas oculares" da nossa alma. Eles registram o que valorizamos e como reagimos ao mundo. Se passamos a vida vendo apenas trevas, reclamações, falhas, escassez, inveja, nosso testemunho será um reflexo dessa escuridão. Mas se treinamos nossos olhos para ver a luz, a graça de Deus, a beleza do sacrifício de Cristo, a bondade no próximo, a provisão diária, nosso testemunho será de luz e verdade.
O apóstolo Paulo nos exorta a fixar os olhos "não naquilo que se vê, mas no que não se vê, porque o que se vê é temporário, mas o que não se vê é eterno" (2 Coríntios 4:18). Esta é a chave para uma visão espiritual saudável. Concentrar-nos nos tesouros celestiais, como advertiu Jesus, previne a escuridão espiritual. Quando nossos olhos estão fixos em Cristo, a "candeia do corpo" recebe a luz verdadeira, e todo o nosso ser é iluminado.
Diante disso, a pergunta "como está a sua vista?" é um chamado ao autoexame e ao arrependimento. É um convite para remover as "dobras" e lealdades divididas, o olho "duplo" que tenta servir a Deus e ao dinheiro, ao espiritual e ao material. Precisamos da cura divina para as nossas cataratas espirituais, para que possamos ver claramente.
Que possamos pedir a Deus que nos dê o "bom olho", a visão generosa e redentora de Cristo. Que no nosso lar, no trabalho e na igreja, sejamos conhecidos não por apontar as trevas, mas por refletir a luz. Que, no grande tribunal, nosso testemunho seja fiel porque vimos a vida, as pessoas e as circunstâncias através da lente do amor de Deus. Que nossos olhos estejam tão cheios da luz do Espírito Santo que todo o nosso corpo resplandeça, não com a glória deste mundo passageiro, mas com a glória eterna do Reino que jamais terá fim. A qualidade da nossa visão espiritual determina a qualidade da nossa vida. Que, pela graça de Deus, possamos ver como o Senhor vê.
Amém!

