NARRAÇÃO NÃO É PRESCRIÇÃO
O Perigo, o engano, de considerar narrativa como norma: uma reflexão Bíblica sobre os erros, as falhas, dos Heróis da Fé e a Santidade de Deus.
A tentação de justificar comportamentos, afastamento da igreja e escolhas pessoais com base nas falhas registradas de personagens bíblicos é um equívoco teológico e hermenêutico profundo, mas surpreendentemente comum. Portanto, isso é o cerne de uma das questões mais delicadas da interpretação bíblica: a distinção crucial entre o que a Escritura relata e o que a Escritura prescreve. Analisar essa questão a partir de uma visão bíblica integral nos leva a compreender melhor a natureza de Deus, a realidade do pecado e o caminho da redenção.
Em primeiro lugar, é preciso afirmar com clareza: a Bíblia é um livro profundamente honesto. Ela não edita a biografia de seus heróis para criar figuras imaculadas. Pelo contrário, ela apresenta Abraão vacilando na fé e mentindo sobre Sara (Gn 12:10-20), Jacó sendo um astuto enganador, Moisés perdendo a paciência e sendo impedido de entrar em Canaã (Nm 20:12), Davi cometendo adultério e homicídio (2 Sm 11), e Pedro negando a Jesus. Esse realismo narrativo é, na verdade, uma evidência da veracidade do texto. No entanto, narrar um evento não é o mesmo que endossá-lo.
Portanto, usar as falhas dos personagens bíblicos como álibi para o pecado é um grave erro de interpretação. É confundir descrição com prescrição. É como ler um livro de história que narra uma guerra e concluir que, porque a guerra aconteceu, ela é algo bom e a ser reproduzido. A narrativa bíblica nos oferece, muitas vezes, exemplos a não ser seguidos, lições extraídas das consequências do afastamento da vontade de Deus. A norma para a conduta do crente nunca é o comportamento falho de um ser humano, por mais notável que seja, mas a perfeita vontade de Deus revelada em Sua Lei e, de forma suprema, na pessoa de Jesus Cristo.
O argumento de que “não foram punidos” também é falacioso. A Bíblia frequentemente nos mostra as consequências amargas dessas ações. Uma leitura atenta mostra que quase sempre houve consequências. Moisés não entrou na Terra Prometida. As bênçãos de Abraão foram maculadas por conflitos familiares decorrentes de suas escolhas. Jacó colheu anos de engano e separação familiar após enganar seu pai. viveu o resto de seus dias colhendo amargura daquilo que plantou. O adultério de Davi, por exemplo, é narrado, mas também é condenado de forma veemente pela voz do profeta Natã: “Você fez o que o SENHOR reprova” (2 Sm 12:9). As consequências – morte do filho, violência na família, rebelião – desenrolam-se de forma trágica. O texto mostra a falha, mas também mostra a justiça e a disciplina de Deus em resposta a ela.
A graça de Deus em não aplicar a punição máxima (a morte) e em restaurar esses indivíduos não anula o princípio da colheita: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá” (Gálatas 6:7). A misericórdia divina na vida deles não foi licença para o pecado, mas demonstração de uma paciência destinada ao arrependimento (Rm 2:4).
Aqui chegamos a um ponto fundamental: a diferença entre cometer uma falha e viver no erro. A contaminação pelo pecado, consequência da Queda no Éden (Gn 3), é uma realidade universal. “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3:23). Não somos pecadores porque pecamos; pecamos porque somos pecadores por natureza (Romanos. A maioria dos heróis bíblicos não foi imune. A história deles, com seus altos e baixos, mostra justamente a luta da humanidade caída. Porém, o cerne da questão está na direção do coração. Havia, na maioria desses casos, um fundamento de fé (Hebreus 11 os celebra por isso) que, quando confrontado com o pecado, levava ao arrependimento e ao retorno a Deus, como no famoso salmo de contrição de Davi (Sl 51). É isso que os diferencia de alguém que, conhecendo a verdade, decide racionalizar e abraçar o pecado como um estilo de vida, usando os erros alheios como justificativa.
A metáfora do soldado limitado, com pouca aptidão para batalha, mas leal, é extremamente apropriada. O serviço a Deus não é reservado para os moralmente perfeitos – pois ninguém se qualificaria –, mas para os que, pela fé, se alistam sob o comando de Cristo, o Senhor da salvação (Hb 2:10). Esse soldado fraco citado pode ter recuos, momentos de medo, falhas de pontaria (pecados eventuais, de fraqueza), mas sua lealdade e seu desejo de servir ao seu Rei são inabaláveis. Ele está no exército, treinando, lutando, sendo corrigido, crescendo. A disciplina da igreja, a comunhão dos santos, a leitura da Palavra e a oração são parte essencial desse treinamento. Abandonar o “quartel” (a igreja) por causa das falhas alheias ou próprias é uma garantia de derrota. É na vivência com os irmãosde da fé, imperfeita como são seus membros, que encontramos o encorajamento para perseverar: “Antes, exortem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama ‘hoje’, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3:13).
A redenção em Cristo e a obra santificadora do Espírito Santo são a resposta final. Os relatos do Antigo Testamento nos mostram a necessidade desesperada de um Redentor que fosse perfeito. Jesus não é apenas um exemplo moral superior; Ele é o substituto que cumpriu perfeitamente a Lei que todos nós, inclusive os grandes nomes da fé, violamos. Sua justiça é imputada àqueles que creem. E o Espírito Santo, que habita no crente, inicia e conduz uma obra progressiva de santificação (Fl 1:6), transformando-nos gradualmente à imagem de Cristo. Esse processo é “aos poucos”, pois respeita nosso livre-arbítrio e nossa condição de seres em processo.
Portanto, a lição mais profunda das narrativas bíblicas das falhas humanas não é que “todo mundo faz, então está tudo bem”. A lição é dupla: primeiro, um solene aviso sobre a universalidade do pecado e suas consequências destrutivas, mesmo para os mais espirituais. Segundo, e principalmente, um magnífico testemunho da graça, paciência e fidelidade redentora de Deus, que não abandona seu povo em seus fracassos, mas os disciplina, restaura e capacita a prosseguir. A norma para nossa vida, portanto, não deve ser buscada nos momentos mais baixos da biografia de um Davi, mas na vida sem mácula de Jesus e nos preceitos eternos da Palavra de Deus. A igreja, longe de ser um clube de perfeitos, é um hospital de doentes em recuperação, e deixar de frequentá-lo por ver outros doentes tossindo é ignorar que nós mesmos também precisamos do mesmo remédio, da mesma comunidade e do mesmo Médico divino, Jesus.
Em resumo, não podemos usar as falhas narradas na Bíblia como desculpa para pecar deliberadamente e para apontarmos o dedo acusador para a igreja. Essas falhas nos mostram que Deus usa vasos imperfeitos para Sua glória, mas Seu padrão moral permanece inalterado: santidade (1 Pedro 1:15-16). A esperança não está em minimizar o pecado, mas em Cristo, que nos redime completamente. Que essa graça nos motive a lutar, confiando que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6).
Glória a Jesus! Amém.

