RELIGIÃO E POLÍTICA NÃO SE DISCUTE. SERÁ?!
Há uma frase popular que resume bem o problema que muitas pessoas, alguns cristãos, têm com a política: “ religião e política não se discute”. Parece prudente, parece espiritual, parece até piedoso. Mas essa frase esconde uma das maiores omissões da história, porque quando os bons se calam, os maus governam. E, o que é mais grave: quando os bons se omitem, os maus também pregam. Veja o que disse Charles Spurgeon sobre esse pensamento: "Só os tolos acreditam que política e religião não se discutem. Por isso os ladrões permanecem no poder e os falsos profetas continuam a pregar.”
A política não é um território estranho a Deus. Muito pelo contrário: desde as primeiras páginas da Bíblia, Deus se revela como Aquele que estrutura, organiza e governa. Em Gênesis 1:26-28, antes mesmo de terminar a criação, Deus já estabelece uma ordem de domínio: “Encham e dominem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pelo chão.” Essa palavra, dominar, não é sobre exploração, mas sobre governo, ordem, responsabilidade. É, na essência, um mandato político. Deus não criou o ser humano para viver à deriva, mas para exercer domínio, estrutura e liderança sobre a criação.
E quando Deus formou Eva como “ajudadora” de Adão, em algumas traduções, “auxiliadora idônea”, ali também nascia uma organização social e política elementar: a família. A primeira instituição humana já trazia em si divisão de papéis, cooperação e ordem. Ou seja, antes de existir nação, rei ou parlamento, já existia política, no sentido mais profundo da palavra: a arte de organizar a convivência humana para o bem comum.
Política é mais do que partidos. É preciso resgatar o verdadeiro significado da palavra “política”. Ela vem do grego polis, que significa cidade, comunidade organizada. Política, portanto, não se resume a eleições, partidos ou parlamentos. Política é a estrutura que rege a família, a igreja, as empresas e o Estado. Toda vez que alguém lidera, organiza, decide e responde por outros, está exercendo função política.
A igreja tem sua política: presbíteros, pastores, conselhos, ordem eclesiástica... A empresa tem sua política: hierarquia, decisões, responsabilidades. A família tem sua política: pai, mãe, autoridade, cuidado mútuo. E o Estado tem sua política: leis, governantes, justiça. Todos esses âmbitos refletem a mesma verdade, Deus é um Deus de ordem, e onde há ordem, há política.
Deus, o Senhor da história política. As Escrituras não deixam dúvida sobre o envolvimento direto de Deus nos destinos das nações. Há cerca de vinte passagens bíblicas que descrevem Deus estabelecendo ou destituindo reis e governantes, um padrão claro demais para ser ignorado. E mesmo o senhor enviando profetas para orientar e corrigir as distorções dos governantes.
Daniel declara: “Ele muda as épocas e as estações; destrona reis e os estabelece” (Daniel 2:21). Não é o acaso, nem apenas a vontade humana, que decide quem governa, é Deus quem permite, estabelece ou remove autoridades, conforme Seus propósitos.
Em Provérbios 8:15-16, a sabedoria divina afirma: “Por meu intermédio, reinam os reis, e os príncipes decretam justiça. Por meu intermédio, governam os príncipes, os nobres e todos os juízes da terra.” Governar é, portanto, uma atividade que deveria estar debaixo da sabedoria de Deus, e que se torna perigosa quando se afasta dela.
O rei Nabucodonosor viveu isso na pele. Depois de um período de arrogância e loucura, ele reconhece: “até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Daniel 4:25). Um dos homens mais poderosos da Antiguidade teve que aprender, da forma mais dura, que nenhum trono está fora do controle de Deus.
Mas as Escrituras também mostram o lado mais sério dessa relação: quando o povo escolhe mal, ou escolhe sem consultar a Deus, as consequências são amargas. Em Oseias 8:4, Deus lamenta: “Eles instituíram reis sem o meu consentimento; escolheram líderes sem a minha aprovação.” E em Oseias 13:10-11, o tom é ainda mais contundente: “Dei a você um rei na minha ira e o tirei na minha indignação.” Escolher mal um governante não é apenas um erro político, é, segundo o texto profético, um assunto que pode acender a ira de Deus.
Há responsabilidade na escolha dos governantes. Deuteronômio 17:14-15 traz uma instrução curiosa: quando o povo de Israel decidisse ter um rei, deveria escolher alguém “dentre os seus próprios irmãos”, alguém que compartilhasse os valores, a fé e a identidade da nação. Ou seja, mesmo prevendo a possibilidade de um governo humano, Deus já orientava critérios: o governante deveria refletir os valores do povo que representa.
Essa é uma lição atemporal. A escolha de um governante nunca é neutra. Isaías 3:4-5 descreve o caos social que resulta de lideranças despreparadas: “Porei jovens no governo; irresponsáveis dominarão. O povo oprimirá a si mesmo.” Quando a sociedade se descuida da escolha de quem irá governá-la, o resultado é a opressão mútua, a instabilidade, o desprezo pelos valores mais nobres.
Historicamente, isso se repete: impérios caíram por causa da leviandade com que trataram a escolha e a formação de seus líderes. Nações prosperaram quando levaram a sério o caráter, a sabedoria e o temor a Deus como critérios de liderança. O cotidiano confirma a mesma regra em escala menor: empresas prosperam ou quebram conforme a qualidade de quem as lidera; famílias se fortalecem ou se desestruturam conforme a maturidade de quem exerce autoridade nelas; igrejas crescem em saúde espiritual ou adoecem conforme o caráter de seus líderes. Isso mostra que Deus pode escolher os governantes, mas esses governantes continuam tendo o seu livre arbítrio, senão Deus seria o responsável pelos atos deles, como no caso do adultério de Davi. Contudo, Deus na sua infinita sabedoria, eventualmente intervém nas ações dos governantes e de toda a humanidade
A omissão tem um preço. Muitos cristãos evitam a política por medo de “se contaminar” com algo considerado sujo ou mundano. Mas essa omissão tem um custo altíssimo. Como bem observou o filósofo Huberto Rohden, quando as pessoas de bem se omitem, abrem espaço para que os despreparados e os mal-intencionados assumam o controle, tanto da política quanto da fé. Em suas palavras, de forma simples: quando os bons se calam, os maus governam ou pregam.
Isso significa que a omissão não é neutralidade, é uma forma de colaboração com a injustiça. Quem se cala diante da escolha de maus governantes está, ainda que indiretamente, contribuindo para a fome, a corrupção, a opressão e as misérias que poderiam ser evitadas com lideranças comprometidas com a justiça e o bem comum.
A Bíblia não apresenta a política como um mal necessário a ser evitado pelos justos, mas como uma esfera de responsabilidade que Deus mesmo instituiu e supervisiona. Ele estabelece e destitui governantes; Ele pede contas de como o poder é exercido; e Ele convoca Seu povo a participar ativamente da construção de uma sociedade mais justa, seja na família, na igreja, na empresa ou no Estado.
Diante disso, a pergunta não deveria ser “devo participar da política?”, mas sim “como posso participar da política de forma que glorifique a Deus e sirva ao meu próximo?” Escolher bem um governante, engajar-se na estrutura da própria comunidade, exercer com seriedade a autoridade que nos foi confiada em casa, no trabalho e na igreja, tudo isso é, no fim das contas, um ato de fé. Porque política, biblicamente falando, não é o oposto da espiritualidade. É uma das formas mais concretas de amar ao próximo como a si mesmo.
Finalmente, termino listando algumas frases de pensadores que pesquei na internet, sobre esse tema, para nossa reflexão:
- Platão: (Filósofo grego):
"O castigo dos bons que não se importam com a política é ser governados pelos maus." - Bertolt Brecht (Dramaturgo alemão):
"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos." - Charles de Gaulle (Ex-presidente francês):
"A política é uma questão muito séria para ser deixada nas mãos dos políticos." - Albert Einstein (Físico teórico):
"O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, mas por aquelas que permitem a maldade." - Edmund Burke (Filósofo irlandês):
"Para que o mal triunfe, basta que os bons homens não façam nada."
Pense nisso, e que o Espírito Santo do Senhor nos ilumine nas decisões que devemos tomar sobre quem governará nossa nação.
Glória a Jesus!
Lúcio Barreto pai é pastor e professor pós-graduado em Teoria da Literatura pela UFMG. Acesse o seu blog: http://luciobarretopai.blogspot.com/ para ver outros conteúdos.

