O Novo de Deus Exige um Coração Renovado
Há momentos na vida em que Deus nos convida a avançar, mas insistimos em olhar para trás. É como se quiséssemos caminhar para frente com o corpo voltado para trás, um passo à frente, dois para trás. O Senhor nos chama para o novo, mas nossas mãos ainda seguram o velho com força.
Jesus nos ensinou algo profundo: ninguém põe remendo de pano novo em veste velha, e ninguém coloca vinho novo em odres velhos (Mateus 9:16-17). O vinho novo, a nova vida, a nova estação, o novo propósito, exige estruturas novas. Não se trata apenas de Deus fazer algo diferente, mas de nós estarmos dispostos a receber de forma diferente.
Quando Israel saiu do Egito, Deus não os levou pelo caminho mais curto. Ele sabia que, diante da primeira dificuldade, o povo poderia querer voltar. E foi exatamente o que aconteceu. No deserto, diante da fome e da sede, eles murmuraram: "Quem nos dera tivéssemos morrido no Egito, quando nos assentávamos junto às panelas de carne!" (Êxodo 16:3). Eles lembravam das cebolas, dos pepinos, dos alhos, mas esqueciam das chicotadas, da escravidão, do sofrimento. A memória seletiva é uma armadilha perigosa: ela idealiza o passado e nos impede de ver a grandeza do presente.
Deus lhes deu o maná, pão do céu, alimento que nunca haviam conhecido. Mas o maná só podia ser colhido para o dia. Quem tentava guardar para o dia seguinte, encontrava-o cheio de vermes. A lição é clara: a provisão de ontem não sustenta a caminhada de hoje. A experiência passada com Deus é memória, é testemunho, não morada. Precisamos de maná fresco, diário, novo.
Assim também é conosco. Quantas vezes nos apegamos a experiências antigas, a movimentos passados, a métodos que já cumpriram seu propósito? Deus está sempre fazendo algo novo, mas nós insistimos em reviver o que já passou. O avivamento de ontem não é o avivamento de hoje. A fé de ontem precisa se renovar hoje.
Nos dias de Noé, após o dilúvio, ele soltou um corvo, que ficou indo e vindo até que as águas secassem (Gênesis 8:7). O corvo é uma ave que se alimenta de carniça, ele pousava sobre os restos mortais do juízo, sobre os destroços do passado. Mas Noé também soltou uma pomba, que voltou por não encontrar repouso, até que finalmente trouxe uma folha de oliveira, sinal de vida nova.
Há cristãos vivendo como o corvo: indo e vindo sobre as águas do passado, alimentando-se de feridas antigas, de traumas, de memórias de derrotas. Mas Deus nos chama para sermos como a pomba, que não encontrou descanso no velho e esperou pelo novo.
O Novo que Deus Faz. "Eis que faço uma coisa nova, agora sairá à luz; porventura não a percebeis? Eis que porei um caminho no deserto, e rios no ermo." (Isaías 43:19)
Deus não está apenas reformando o velho, Ele está criando algo completamente novo. Um caminho onde não havia estrada. Rios onde só havia sequidão. Mas há um detalhe: "porventura não a percebeis?" O novo de Deus muitas vezes passa despercebido porque ainda estamos presos ao que ficou para trás.
No cotidiano, vemos isso acontecer. Pessoas que passam anos presas a um posicionamento que acabou, sem perceber que Deus já preparou algo novo. Profissionais que se apegam a um emprego que já não existe mais, sem enxergar as portas que se abriram. Famílias que insistem em padrões que herdaram, sem perceber que Deus está fazendo algo diferente na nova geração.
O exemplo do dia a dia podemos ver o GPS recalculando a rota
Quandovocê erra o caminho, o GPS não fica repetindo “você errou”. Ele diz: “Recalculando rota”. Deus também não nos chama para viver culpados pelo desvio de ontem, mas para seguir a nova rota que Ele já preparou. O passado explica parte da história, mas não deve definir o destino.
Como Abraçar o Novo:
Primeiro, é preciso soltar. Como a mulher de Ló, que olhou para trás e se transformou em estátua de sal, não podemos avançar enquanto nosso coração está no que ficou. Soltar não é esquecer, mas é parar de viver no passado.
Segundo, é preciso renovar a mente (Romanos 12:2). O novo de Deus exige uma nova mentalidade. Não podemos pensar como o mundo pensa, nem mesmo como pensávamos antes. Precisamos de mentes transformadas, que discirnam a vontade de Deus.
Terceiro, é preciso confiar. O deserto é lugar de dependência. Deus permitiu que Israel passasse fome para que aprendesse que não vive só de pão, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor (Deuteronômio 8:3). O novo muitas vezes nos tira da zona de conforto, mas é exatamente ali que experimentamos o sobrenatural.
Portanto, o que ficou, ficou. A tempestade passou. As águas secaram. O corvo já não tem onde pousar. É hora de enviar a pomba e ver o novo florescer. Deus está fazendo algo novo, e Ele quer que você perceba, que participe, que viva.
Não ande no novo com vestes velhas. Não viva o novo apegado ao passado. Renove sua mente, abra seu coração e caminhe. O melhor de Deus não está atrás, está adiante. O maná de hoje está sobre o chão da sua manhã. Recolha-o, alimente-se e siga em frente. Porque Aquele que começou a boa obra em você é fiel para completá-la, não no passado, mas no agora, e no que ainda está por vir.
Amém.
Lúcio Barreto pai é pastor e professor pós-graduado em Teoria da Literatura pela UFMG. Acesse o seu blog pessoal para ver outros conteúdos: https://luciobarretopai.blogspot.com/

