ORANDO NO PLURAL

Quando Amar a Deus Transborda em Amor ao Próximo. Existe uma tendência muito humana de tornar a fé um assunto íntimo e privado, um contrato silencioso entre o indivíduo e Deus, travado nos quartos fechados da alma. Oramos pelo nosso emprego, pela nossa saúde, pela nossa família imediata, como se o círculo da graça tivesse um raio curto, apenas o suficiente para cobrir nossa própria sombra. Mas quando abrimos as Escrituras com atenção, descobrimos que Deus nunca projetou a fé para caber dentro de nós. Ela foi feita para transbordar.


A oração de Jó é um retrato poderoso disso. Pai de dez filhos, ele não esperava que o mal chegasse à porta para então clamar a Deus. Levantava-se de madrugada, oferecia holocaustos individuais por cada um dos filhos, temendo que em algum banquete, num momento de euforia ou descuido, algum deles tivesse pecado em pensamento contra o Senhor. Jó 1:5 nos mostra um homem que não separava sua piedade pessoal de sua responsabilidade pelo outro. Ele entendia que ser íntegro diante de Deus implicava, necessariamente, carregar o outro no coração, especialmente os que dependiam de sua cobertura espiritual.


Esse modelo de intercessão não era ocasional. Era consistente, proativo e sacrificial. Jó não intercedia em resposta a crises, mas em antecipação a elas. Não aguardava a evidência do pecado para agir, agia por amor preventivo, por responsabilidade sacerdotal. E Deus reconheceu essa autoridade. Em Jó 42:8, ao final de toda a provação, o Senhor ordena que os amigos de Jó busquem a sua intercessão, confirmando que a oração de um homem íntegro, que carrega o outro, possui peso e alcance especiais diante do trono celestial.


A Oração que Jesus nos ensinou não foi singular. Quando os discípulos pediram a Jesus que os ensinasse a orar, Ele poderia ter dado um modelo intimista, voltado para o crescimento espiritual individual. Em vez disso, entregou-lhes uma oração radicalmente comunitária. “Pai nosso”, não “Pai meu”. “Dá-nos o pão nosso”, não “o meu pão”. “Perdoa as nossas ofensas”, “não nos deixes cair”, “livra-nos do Maligno”. Cada pronome do Pai Nosso é uma afirmação teológica: ninguém ora sozinho. Quando ajoelhamos e pronunciamos essas palavras, somos imediatamente inseridos numa comunidade. Pedimos pão para uma mesa coletiva. Pedimos perdão reconhecendo que somos todos devedores. Pedimos livramento como quem sabe que a batalha espiritual não é travada em isolamento, mas em formação. A batalha é contra a igreja, contra o corpo de Cristo.


Jesus não ensinava por acaso. Ao modelar a oração no plural, Ele estava revelando o caráter do próprio Deus, um Pai que não tem filhos únicos, mas uma família. E famílias vivem em interdependência. O que afeta um, afeta todos. A bênção de um pode interceder pelo outro. A oração de um pode cobrir o que o outro ainda não consegue ver ou alcançar.


O segundo mandamento não é opcional. Quando um doutor da lei perguntou a Jesus qual era o maior mandamento, Ele respondeu com dois, inseparáveis: amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo. É revelador que Jesus os tenha unido assim. Não disse “o segundo está distante do primeiro”, disse que era “semelhante a este” (Mateus 22:39). Amar a Deus e amar o próximo não são tarefas paralelas. São expressões do mesmo impulso, faces de uma mesma moeda.

Isso tem implicações práticas e espirituais enormes. Na vida prática, significa que a fé autêntica se manifesta em gestos concretos de cuidado com o outro, no vizinho em dificuldade, na família que está passando por crise, no irmão de igreja que perdeu o emprego, no Brasil que clama por justiça e misericórdia. Fé sem obras é, como diria Tiago, fé morta. O amor ao próximo precisa ter endereço, nome e rosto.


Na vida espiritual, esse amor se traduz em intercessão. Orar pelo outro é um dos atos mais elevados de amor que um ser humano pode praticar. É apresentar diante de Deus aquilo que o outro não consegue articular, é fazer cobertura espiritual sobre quem está vulnerável, é lembrar ao Pai os filhos que porventura se esqueceram de Ele existir. É, em linguagem bíblica, ser sacerdote, não no sentido religioso institucional, mas no sentido da família de Deus habitando a terra e cumprindo o papel de mediação e intercessão que Cristo nos confiou.



Quando a oração plural transforma a vida real. Há algo que acontece conosco quando expandimos o raio de nossas orações. Deixamos de ser consumidores espirituais, pessoas que chegam a Deus com listas pessoais, e nos tornamos sacerdotes, intercessores, portadores do peso do outro. Isso transforma não apenas os que são alvo da oração, mas quem ora. 


Ampliar a oração é ampliar o coração.


Ampliar a oração é ampliar o coração. Quem começa a orar pelo Brasil descobre que passa a amar o Brasil de modo diferente. Quem ora por seus inimigos, tem mais facilidade para perdoar. Quem intercede pela família começa a enxergar cada membro com os olhos da misericórdia divina. Quem ora por Israel mergulha nas promessas bíblicas e sente o fio dourado que conecta toda a história da redenção. Quem intercede pela igreja universal começa a compreender que pertence a algo maior do que sua denominação, seu bairro, sua geração. A oração no plural é, portanto, uma escola de amor. Ela nos forma para além de nós mesmos.


Somos a família de Deus na terra. Todo aquele que aceita Jesus como Salvador passa a integrar a família de Deus aqui na terra. E famílias carregam responsabilidade umas pelas outras. O apóstolo Paulo exortava os cristãos de Filipos a não buscarem apenas o seu próprio bem, mas também o dos outros (Filipenses 2:4). João dizia que, se alguém diz que ama a Deus mas odeia o irmão, é mentiroso (1 João 4:20). A lógica das Escrituras é coerente: não existe amor vertical genuíno que não se curve horizontalmente.


Que o exemplo de Jó nos inspire a levantar mais cedo, a abrir mais os braços em oração, a incluir mais nomes na nossa lista. Que o Pai Nosso, pronunciado com consciência, nos lembre que oramos sempre como parte de uma família. E que o segundo mandamento, que Jesus chamou de semelhante ao primeiro, nunca nos deixe orar em singular quando o céu nos convida ao plural. Precisamos nos dedicar em nossas orações a clamar por famílias que conhecemos e que estão mais próximas de nós pedindo perdão pelos seus pecados, pedindo proteção e pedindo que haja principalmente salvação nessas famílias. Porque amar a Deus de verdade é, inevitavelmente, amar o próximo. E amar o próximo, de joelhos, é uma das formas mais belas de adoração.​​​​​​​​​​​​​​​​


Quando nos movemos em oração pelo próximo, Deus se move para atender as nossas necessidades. Foi o que aconteceu com Jó enquanto ele orava por seus amigos, Deus restaurou sua vida:  “Mudou o SENHOR a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o SENHOR deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.”Jó 42:10             


Pai nosso, que estás nos céus, toca os nossos corações com o fogo do teu amor. Arranca de nós o egoísmo que nos fecha em nós mesmos e desperta em cada um de nós o sentimento de Jó, aquele que se levanta cedo, que carrega o outro no coração e que intercede sem ser pedido. Que as nossas orações nunca mais caibam apenas em nós. Expande o nosso olhar para a família, para a igreja, para o Brasil, para o próximo que sofre em silêncio ao nosso redor. Que o Pai Nosso que pronunciamos com os lábios se torne realidade nas nossas vidas, nos nossos gestos e nas nossas joelhos dobrados em favor do outro. 

Em nome de Jesus. Amém.