DEPOIS DA VOZ DE DEUS, A QUEM VOCÊ TEM OUVIDO?
Mas Roboão não seguiu o conselho dos homens mais velhos e foi falar com os jovens que haviam crescido junto com ele e que agora eram os seus conselheiros. - Que conselho vocês me dão? - perguntou ele. - O que é que eu digo a esse povo que está pedindo para que eu torne as suas cargas mais leves? Eles responderam: - Você deve dizer o seguinte: "O meu dedinho é mais grosso do que a cintura do meu pai! Ele fez vocês carregarem cargas pesadas; eu vou aumentar o peso ainda mais. Ele castigou vocês com chicotes; eu vou surrá-los com correias."
A história de Roboão é trágica, e nos mostra que tudo girou em torno de aceitar conselhos insensatos e da falta de discernimento entre o bom e o mau conselho.
Há um momento crítico na vida de todo jovem que começa a amadurecer: o momento em que percebe que o pai não é super-herói. Que a mãe também chora. Que os pais erram, se contradizem, às vezes foram hipócritas e que o mundo que eles construíram não era tão sólido quanto parecia da infância. Esse momento é inevitável, necessário até. O problema não é ver que os pais são humanos. O problema é o que o jovem faz com essa descoberta. Roboão, filho de Salomão, nos ensina isso de forma devastadora.
São muitas as vozes “deste mundo”. Vozes de inveja, soberba, mentira, bajuladoras, interesseiras, etc. O erro de Roboão quando sobe ao trono e herda um reino poderoso, mas também um povo cansado, Ele menospreza a experiência, sabedoria, e dá ouvidos a vaidade dos jovens. O povo vem até ele com um pedido simples: “Alivie o jugo que seu pai nos impôs, e nós o serviremos” (2 Cr 10:4). Era uma oportunidade de ouro. Os anciãos que haviam servido ao pai percebem isso imediatamente: “Se você for bondoso com este povo e procurar agradá-los, eles serão seus servos para sempre” (v. 7).
A sabedoria dos velhos não era fraqueza. Era experiência destilada em palavras. Era o acúmulo de décadas vendo reinos prosperarem e ruírem, de entender que o poder que se serve a si mesmo se destrói. Os anciãos conheciam o coração humano porque tinham visto o suficiente para entendê-lo.
Mas Roboão “rejeitou o conselho dos anciãos” (v. 8) e recorreu aos jovens com quem havia crescido. E o conselho que recebeu deles revelou algo importante: esses jovens falavam a partir da vaidade, do desejo de impressionar, da ânsia de mostrar força. “Assim você deve falar ao povo: meu dedo mínimo é mais grosso que a cintura de meu pai” (v. 10). Era linguagem de ego, não de governo. Era a fala de quem nunca teve que colher o que plantou.
O resultado? O reino se racha ao meio. Dez tribos se separam. Uma nação construída com décadas de suor e sangue se fragmenta em três dias, porque um rei jovem preferiu ouvir vozes que o fizeram sentir poderoso em vez de vozes que o fizeram enxergar a verdade.
O mesmo erro, mil anos depois. A cena de Roboão se repete com assustadora fidelidade em cada geração. O cenário muda, não é mais um palácio em Siquém, mas um dormitório de faculdade, um grupo de WhatsApp, uma roda de amigos depois do culto. O mecanismo, porém, é o mesmo.
O jovem cresce ouvindo os pais, os pastores, os mestres. Há nessa relação autoridade, limite, estrutura, coisas que a carne naturalmente resiste. E então vem o momento da descoberta: o pai falhou. A mãe contradisse hoje o que pregou ontem. O pastor tem fragilidades que a criança jamais enxergara. E com essa descoberta, algo se move por dentro do jovem, não sempre com má intenção, mas com um alívio perigoso: “Afinal, eles também erram. Então não preciso obedecer como antes.”
É aqui que mora o perigo. Porque nesse vácuo de autoridade, alguém sempre entra. E quase sempre são os Roboões jovens, os colegas de faculdade cheios de teorias recém-aprendidas, os amigos de trabalho que leram dois livros e acham que desvendaram a existência, a galera da internet e até os irmãos de igreja que estão fracos na fé mas fortes na opinião. Eles falam com segurança. Eles validam a frustração. Eles dizem o que o jovem quer ouvir. E o jovem, sedento de uma autonomia que ainda não sabe carregar, bebe da fonte da imaturidade.
Há uma razão simples por que os jovens ouvem os fracos? Os fracos na fé muitas vezes falam a língua da permissão. Eles relativizam o que os pais absolutizaram. Eles chamam de “liberdade” o que os mestres chamavam de “cuidado”. Eles tratam a dúvida como virtude intelectual, e a obediência como ingenuidade. Em um coração que acabou de descobrir que a autoridade é falível, essa mensagem soa como libertação.
Mas há uma diferença abissal entre questionar com humildade, para aprender, e rejeitar com orgulho. O jovem sábio que descobre que o pai erra pergunta: “Que lição posso aprender com esse erro?” O jovem tolo pergunta: “Por que devo ouvi-lo, se ele também falha?” O primeiro cresce. O segundo se isola, e passa a ser governado por aqueles que têm tão pouca experiência quanto ele, mas mais audácia para falar.
Os anciãos de Roboão não eram perfeitos. Salomão, o pai deles, também havia errado gravemente, acumulara mulheres estrangeiras, abrira o coração para ídolos no fim da vida. Mas a sabedoria daqueles homens não dependia da perfeição de quem os havia formado. Dependia do que eles aprenderam com os erros, os próprios e os alheios.
Há três movimentos que 2 Crônicas 10 sugere ao jovem cristão de hoje.
Primeiro: separar o mensageiro da mensagem. Quando o pai ou a mãe falham, a mensagem que eles transmitiram não necessariamente falhou junto. A Bíblia que ele ensinou ainda é verdade. Os valores que eles cultivaram ainda têm peso. A voz deles é sempre carregada de amor. O erro deles é deles, e pode até ser uma oportunidade de o jovem encarnar aqueles valores com mais profundidade do que o pai conseguiu. Rejeitar a sabedoria dos pais porque errara é como jogar fora uma bússola porque quem a deu já se perdeu uma vez, porque não soube usá-la.
Segundo: desconfiar do conselho que apenas agrada. Os amigos jovens de Roboão não disseram o que era certo, disseram o que ele queria ouvir. O conselho verdadeiro quase sempre tem um grão de amargura. Ele aponta para o que precisa mudar, para onde estamos cegos, para o custo do caminho correto. O conselho que apenas valida, que apenas alivia, que apenas legitima o que já queríamos fazer, esse conselho merece suspeita.
Terceiro: buscar ativamente os anciãos. Não os perfeitos, esses não existem. Mas os que têm cicatrizes, os que já atravessaram as estações da vida que o jovem ainda não viu, os que falam com a autoridade de quem pagou o preço pelo que acredita. Na igreja, esses homens e mulheres são um tesouro subestimado. Em uma cultura que glorifica a juventude e descarta a velhice, escolher sentar aos pés dos mais velhos é um ato quase revolucionário, e profundamente bíblico.
Roboão perdeu dez tribos porque escolheu ouvir vozes que o fizeram sentir grande em vez de vozes que o tornariam sábio. O jovem de hoje não perderá tribos, mas pode perder a fé, o casamento, a vocação, anos preciosos, ao fazer a mesma escolha.
Descobrir que os pais são humanos é crescer. Mas crescer de verdade é perceber que a falibilidade deles não anula a sabedoria que carregam, e que nossa geração, por mais conectada e informada que esteja, ainda tem muito a aprender com aqueles que vieram antes: “Ouve teu pai, que te gerou, e não desprezes tua mãe quando ela envelhecer.” (Provérbios 23:22)

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