ENTREGAR O DÍZIMO É PERIGOSO?

Nos últimos tempos, tem-se tornado cada vez mais comum observar críticas contundentes, muitas vezes carregadas de generalizações, contra igrejas evangélicas, especialmente no que diz respeito à administração de recursos financeiros. Em particular, questiona-se o destino de verbas públicas e, por extensão, a legitimidade das contribuições voluntárias dos fiéis, como o dízimo e as ofertas. Diante desse cenário, surge uma pergunta provocativa: afinal, entregar o dízimo é perigoso?

Para responder com equilíbrio, é necessário separar emoção de razão, casos isolados de práticas institucionais, e, sobretudo, distinguir falhas humanas da essência de um princípio espiritual.

É inegável que denúncias envolvendo líderes religiosos causam indignação. Quando um pastor ou dirigente é acusado de má conduta financeira, isso gera escândalo não apenas no meio secular, mas também dentro da própria igrja. No entanto, há um risco sério em transformar episódios pontuais em argumentos generalizados contra toda uma estrutura religiosa.

A lógica da generalização, embora sedutora, é profundamente injusta. Se aplicada de forma consistente, levaria a conclusões absurdas. Por exemplo: seria razoável condenar todo o sistema político por causa de escândalos envolvendo alguns parlamentares? Ou desacreditar toda a classe médica por erros cometidos por profissionais específicos? Evidentemente que não. Em qualquer área da sociedade composta por seres humanos, haverá falhas, desvios e até crimes, e isso é reflexo da imperfeição humana causada pela queda no paraíso, não da invalidação do sistema como um todo.

Quando uma igreja é pequena, a probabilidade de muitos escândalos é bem menor, mas quando a igreja tem milhares de membros e inúmeros templos, às vezes não só no Brasil mas em vários países, é muito difícil para a liderança dessa igreja controlar a vida de seus membros. Aliás, a igreja é uma instituição de portas e braços abertos para acolher, na sua maioria, pecadores que estão tentando melhorar de vida. Veja o que Jesus disse quando o acusaram de andar com pecadores: “Ouvindo isso, Jesus lhes disse: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas Pecadores”.             Marcos 2:17

Portanto, quando voltamos nosso olhar para a fé cristã, encontramos exemplos ainda mais contundentes. O próprio ministério de Jesus Cristo contou com um grupo pequeno de discípulos, e, mesmo assim, houve falhas graves entre eles. Judas Iscariotes, responsável pela bolsa de recursos do grupo, tornou-se símbolo de traição e corrupção. Já Pedro, um dos mais próximos de Jesus, negou o Mestre em um momento decisivo, sem falar que os discípulos mais próximos abandonaram Jesus na hora da sua crucificação, ficando só um deles.

Esses fatos não invalidaram o ministério de Cristo, tampouco anularam a fé daqueles que contribuíam para aquela obra. Pelo contrário, evidenciam que Deus realiza Sua obra por meio de pessoas imperfeitas. Se fosse exigida perfeição absoluta para validar qualquer instituição, nenhuma igreja, ou organização humana, poderia subsistir.

O dízimo, dentro da tradição bíblica, não é apresentado como um mecanismo de exploração, mas como um princípio espiritual de fidelidade, gratidão e manutenção da obra de Deus. Textos como Malaquias 3:10 (“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro…”) e 2 Coríntios 9:7 (“Cada um contribua segundo propôs no coração…”) revelam que a contribuição deve ser voluntária, consciente e baseada na fé, não na coerção.

Além disso, historicamente, os recursos provenientes de dízimos e ofertas têm desempenhado um papel fundamental no sustento de atividades sociais. Muitas igrejas mantêm projetos de assistência a famílias carentes, recuperação de dependentes químicos, distribuição de alimentos, apoio psicológico e espiritual, entre outros. Em diversas regiões do mundo, inclusive em áreas de extrema pobreza, essas instituições suprem lacunas que o próprio Estado não consegue preencher de forma eficiente.

Ignorar esse impacto positivo por causa de casos isolados é não apenas injusto, mas também reducionista. É importante, sim, investigar denúncias, exigir transparência e responsabilizar quem comete irregularidades. A justiça deve ser aplicada com rigor e imparcialidade. Contudo, isso não deve servir como justificativa para desacreditar toda uma denominação.

Outro ponto relevante é compreender a natureza do dízimo: ele não é um investimento financeiro com garantia de retorno material, nem um contrato com líderes religiosos. Trata-se de um ato espiritual entre o fiel e Deus. Quando alguém contribui, está expressando sua fé, sua confiança e seu compromisso com aquilo que acredita.

Portanto, o eventual mau uso de recursos por terceiros não anula o valor espiritual da obediência individual. Em outras palavras, a responsabilidade pelo uso correto dos recursos é de quem os administra, enquanto a responsabilidade pela fidelidade é de quem contribui.

Dito isso, também é válido destacar que o cristão não deve agir de forma ingênua. A Bíblia incentiva o discernimento. Em 1 Tessalonicenses 5:21, lemos: “Examinai tudo. Retende o bem.” Isso significa que é legítimo, e até saudável, avaliar a seriedade, a transparência e a integridade da instituição à qual se contribui.

Uma igreja comprometida com princípios bíblicos tende a prestar contas, agir com clareza e demonstrar responsabilidade na gestão dos recursos. Quando isso não ocorre, cabe ao crente refletir, questionar e, se necessário, buscar uma igreja mais alinhada com os valores cristãos.

Portanto, o problema não está no dízimo em si, mas no uso indevido que eventualmente possa ser feito por pessoas específicas. Generalizar essas falhas é tão injusto quanto improdutivo

A pergunta inicial “entregar o dízimo é perigoso?”Isso é apenas uma conjectura irônica, e quer dizer se não vão querer processá-lo “por contribuir para um  líder improbo”. A resposta, na verdade com mais precisão: perigoso não é contribuir com fé e consciência, mas sim abandonar o senso crítico ou permitir que casos isolados destruam princípios que, ao longo da história, têm sustentado não apenas igrejas, mas também inúmeras ações de transformação social.

Por fim, cabe uma reflexão mais ampla: até que ponto estamos dispostos a julgar instituições inteiras pela falha de um indivíduo? E mais: será que, ao fazer isso, não estamos desviando o foco das discussões realmente importantes, como a necessidade de transparência, justiça e responsabilidade, tanto no âmbito religioso quanto no público?

Em um mundo cada vez mais marcado por polarizações e julgamentos precipitados, talvez o verdadeiro desafio seja cultivar equilíbrio: nem ingenuidade cega, nem ceticismo absoluto. Afinal, a fé genuína não exclui a razão, ela a aperfeiçoa. 

Que o Senhor nos ajude para que não compactuamos com a desonestidade, mas, também, não façamos juízo precipitado e injusto, julgando todos pelos atos de um.

Amém!