NÃO ESTAMOS DESAMPARADOS

Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas.” Mateus 10:16

Estas palavras de Jesus aos seus discípulos não foram meramente um alerta, mas uma declaração de identidade e missão. Ao afirmar que somos ovelhas no meio de lobos, Cristo não estava nos condenando à impotência, mas nos definindo como agentes de paz num mundo hostil. A ovelha é frágil, indefesa por si mesma, mas não está desamparada. O seu pastor é o maior poder que existe. E mais: Ele nos equipou com recursos espirituais que transformam nossa aparente fraqueza em força invencível.

Ser cristão é viver nesta tensão: a mansidão da pomba e a astúcia da serpente; a paz interior e a guerra espiritual; a fragilidade humana e o poder divino. Não estamos sós. Cada recurso que Deus nos deu é uma trincheira de vitória. Reflitamos sobre cada um deles.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32). A Palavra de Deus não é apenas um livro de regras; é lâmpada para os pés e luz para o caminho (Salmo 119:105). Nela encontramos não apenas orientação moral, mas revelação do caráter de Deus, da história da salvação e do nosso papel nela. A Bíblia é a espada do Espírito (Efésios 6:17), a arma ofensiva que usamos para combater mentiras, enganos e desespero. Ela nos ensina a discernir a vontade de Deus e nos fortalece para não sucumbirmos aos lobos. Quando o mundo nos acusa, a verdade nos defende. Quando a dúvida nos assalta, a promessa nos ancora. A Bíblia não é apenas um manual; é o próprio Cristo feito letra, verbo vivo que nos conduz.

Jesus prometeu: “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo” (Atos 1:8). Sem o Espírito, nossa fé é teoria. Com Ele, é fogo, direção, consolo e autoridade. É Ele quem nos lembra das palavras de Cristo, quem intercede por nós com gemidos inexprimíveis, quem nos sela para o dia da redenção. A nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra principados e potestades. Ora, se a batalha é espiritual, somente armas espirituais podem vencê-la. O Espírito Santo é a própria presença de Deus em nós, capacitando-nos a fazer o que jamais faríamos por nós mesmos: perdoar inimigos, amar os indiferentes, perseverar na dor. Ele é o nosso Consolador, Advogado e Guia.

Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (João 14:13). A oração não é um escape religioso, mas o canal pelo qual a vontade de Deus se manifesta na terra. É na oração que recebemos direção, forças, paz e até mesmo livramentos invisíveis. Orar não é convencer Deus a agir, mas alinhar nosso coração ao dEle. É na oração que a astúcia da serpente se manifesta em sabedoria e a simplicidade da pomba em pureza de intenção. Jesus orou. Os apóstolos oravam. A igreja primitiva vivia em oração. Se desprezamos a oração, desprezamos nossa principal linha de comunicação com o General.

“As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). A igreja não é uma instituição falível, mas um organismo vivo, corpo de Cristo, coluna e firmeza da verdade. É nela que os dons são exercidos, os fracos são fortalecidos, os caídos são erguidos. A igreja é o ambiente onde aprendemos a viver em comunidade, a perdoar, servir e crescer. Contra ela se levantam impérios, filosofias, modismos e perseguições, mas ela permanece. Não por sua organização, mas por sua Cabeça. Nenhum lobo, por mais feroz, pode destruir o rebanho do Bom Pastor.

Deus não apenas nos chama, mas nos capacita. Os dons espirituais são manifestações da graça para edificação do corpo. Profecia, ensino, fé, discernimento, línguas, interpretação, serviço... todos são recursos dados pelo Espírito conforme lhe apraz. Impor as mãos sobre os enfermos não é um ritual mágico, mas um ato de fé que reconhece que a cura pertence a Deus. Jesus ordenou: “Curar os enfermos, purificar os leprosos, ressuscitar os mortos, expulsar demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10:8). A igreja não pode negligenciar este ministério. Onde a medicina chega até onde pode, a fé vai além, alcançando o sobrenatural.

Milagres não são apenas fenômenos extraordinários; são sinais do Reino. Eles apontam para Alguém maior que as leis da natureza. Quando Jesus acalmou a tempestade, não apenas demonstrou poder, mas mostrou que estava acima do caos. Quando abriu os olhos dos cegos, revelou ser a Luz do mundo. Milagres não são para entretenimento, nem para vaidade humana. São o dedo de Deus agindo na história. Ainda hoje, Deus opera sinais entre ovelhas e lobos, provando que o Pastor continua vivo.

Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hebreus 1:14). Os anjos não são seres decorativos, mas guerreiros. Eles acampam ao redor dos que temem a Deus (Salmo 34:7). Eles guardaram Daniel na cova, livraram Pedro da prisão, anunciaram o nascimento de Jesus e ministraram a Ele no deserto. Não os adoramos, mas reconhecemos que Deus colocou exércitos celestiais a serviço da nossa jornada. Em meio aos lobos, não estamos sozinhos: há mais conosco do que contra nós.

“Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Romanos 8:37). Não seremos vencedores um dia; já o somos. Não por nossos méritos, mas porque Cristo já venceu. O mundo, a carne e o diabo já foram derrotados na cruz. O que experimentamos agora são os últimos suspiros do inimigo. A nossa salvação não é uma conquista futura incerta, mas uma realidade presente. Fomos salvos, estamos sendo salvos e seremos salvos. A vitória não depende da nossa força, mas da fidelidade dAquele que nos chamou.

Somos ovelhas, sim. Frágeis, dependentes, perseguidos. Mas estamos nas mãos do Bom Pastor. Ele não nos enviou desarmados. Deu-nos a verdade, o poder, a oração, a comunidade, os dons, os sinais, os anjos e, acima de tudo, a certeza da vitória. Os lobos podem uivar, mas o rebanho avança. Podem tentar dispersar, mas estamos unidos ao Pastor. Podem ameaçar, mas já vencemos.

Que possamos viver como ovelhas sábias: astutas para discernir o mal, simples para não praticá-lo; mansas para não revidar, firmes para não recuar. E que, em tudo, confiemos não em nossa capacidade, mas nAquele que é o Leão da tribo de Judá, e que, por amor, tornou-Se também o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Amém.