“DEUS É AMOR” E NÃO “O AMOR É DEUS”
Agostinho disse: Se Deus é amor, então amor é Deus?
Já, C S Lews disse: "Deus é amor" e não "O amor é Deus"
Não vamos analisar o contraste entre esses dois pontos de vista, mas vamos considerar as implicações diante da visão de CSLews sobre essa passagem de 1 João 4:8.
A inversão denunciada por C.S. Lewis, transformar "Deus é amor" em "o amor é Deus", não é uma sutileza teológica, mas uma porta aberta para um abismo de consequências práticas e moralmente desastrosas. Quando o amor é divinizado, ele se torna uma desculpa universal, um ídolo que exige sacrifícios e justifica quase tudo. Vamos explorar, as faces mais sombrias dessa idolatria: o amor que não corrige, o amor que mente, o amor que trai e o amor que devora.
A primeira e mais visível consequência maléfica é a morte da disciplina. Se o amor é Deus, então a maior virtude é não causar sofrimento ou desconforto a ninguém. Corrigir, punir ou mesmo discordar torna-se um ato de "não amor". É aqui que nasce a geração de pais que temem castigar os filhos.
Imagine um pai que, por "amor", deixa de impor limites ao filho que quebra regras, desrespeita os outros ou se recusa a estudar. Ele racionaliza: "Se eu o castigar, ele vai pensar que não o amo." O que ele não vê é que está criando um tirano. A criança aprende que o amor é sinônimo de permissividade e que suas ações não têm consequências. Ao crescer, ela se torna um adulto incapaz de lidar com frustrações, sem autocontrole e com um senso de direito distorcido. A sociedade, então, colhe os frutos: jovens que não respeitam autoridades, que não aceitam um "não" e que recorrem à violência quando frustrados, quando não se julgam amados. A correção, feita com justiça e sem amargura, é um ato de amor genuíno. Quando o amor se torna Deus, a disciplina é abandonada, e o caos social se instala. Não é amor; é negligência travestida de bondade.
Se o amor (entendido como desejo, sucesso ou prazer) é Deus, então tudo o que leva a esse amor é sagrado. A mentira, a fraude e o engano se tornam ferramentas legítimas para alcançar o que se ama. Quantas pessoas mentem "por amor" – ao dinheiro, ao poder, ao status?
Um executivo que frauda a empresa para obter um bônus maior pode justificar: "Estou fazendo isso pela minha família, por amor a eles." Um político que corrompe o sistema pode dizer: "É para o bem da minha comunidade, por amor ao meu povo." Um marido que esconde dívidas ou traições da esposa argumenta: "É para protegê-la, por amor a ela."
Aqui, a inversão de Lewis é evidente: o amor (ou o objeto do amor) torna-se um ídolo que absolve qualquer pecado. A mentira deixa de ser um vício e se torna um "meio necessário". No entanto, a Bíblia é clara: Deus é a Verdade (João 14:6), e o amor divino não pode habitar na mentira. Quando o amor é Deus, a verdade é a primeira vítima. Relações são construídas sobre bases podres, e a confiança, o alicerce de qualquer sociedade saudável, é corroída. A curto prazo, a mentira pode parecer benéfica; a longo prazo, ela destrói famílias, empresas e nações. O amor que mente não é amor; é uma forma sofisticada de egoísmo.
Se o amor humano é o novo Deus, então os sentimentos e desejos tornam-se leis supremas. A frase "o coração quer o que quer" é elevada a um mandamento. É aqui que a infidelidade conjugal, a traição de amizades e o abandono de compromissos encontram sua justificativa moral.
Quantas pessoas traem seus cônjuges "por amor" – seja por uma paixão avassaladora, seja pela busca de uma felicidade que o casamento atual não proporciona? Elas se convencem de que estão sendo fiéis a si mesmas, ao seu "verdadeiro amor". A promessa de fidelidade feita diante de Deus e da comunidade é descartada como uma relíquia opressora. O mesmo ocorre com amigos que traem a confiança por interesse pessoal ou com profissionais que abandonam seus princípios por uma oferta melhor.
Lewis, em sua obra, mostra que o amor humano, quando não subordinado a Deus, torna-se um tirano. O amor romântico, por exemplo, pode justificar o adultério, a mentira e o abandono dos filhos, tudo em nome de uma "paixão verdadeira". Mas o resultado é a fragmentação das famílias, a dor profunda dos traídos e a banalização do compromisso. Uma sociedade onde a traição é justificada pelo "amor" é uma sociedade onde ninguém pode confiar em ninguém, e a solidão se torna epidêmica. O amor que trai não é amor; é uma forma de adoração a si mesmo, disfarçada de nobreza.
Por fim, a divinização do amor leva à coisificação do outro. Se o amor é Deus, então o amado (ou o objeto do amor) é adorado. No entanto, a adoração humana é volúvel e possessiva. Em vez de amar o outro por ele mesmo e por sua dignidade intrínseca, a pessoa o ama pelo que ele proporciona: prazer, status, segurança ou validação.
· O ciúme possessivo: Um parceiro que "ama demais" pode se tornar controlador, isolando o outro de amigos e familiares, justificando-se: "É por amor, não suporto ficar longe de você." Isso não é amor; é uma prisão emocional.
· A instrumentalização das relações: Pais que veem os filhos como extensões de seus próprios sonhos, amigos que só se aproximam por interesses e chefes que usam os subordinados como degraus – todos agem sob a lógica de que o outro existe para satisfazer suas necessidades.
· O culto ao corpo e à beleza: Se o amor é o que sinto, então a atração física se torna o critério supremo. O outro é amado enquanto é belo, jovem ou útil. Quando envelhece, adoece ou falha, o "amor" acaba. Isso gera uma sociedade descartável, onde pessoas são substituídas como objetos.
Quando o amor é Deus, o outro deixa de ser um "tu" para se tornar um "isso". A dignidade humana é reduzida à utilidade. A sociedade se torna um palco de relações superficiais, onde ninguém é amado de verdade, mas apenas usado. E, no fim, o "amor" que parecia tão elevado revela-se a forma mais cruel de egoísmo.
A inversão apontada por C.S. Lewis não é uma questão abstrata. Ela se manifesta em cada ato de negligência paternal, em cada mentira contada por conveniência, em cada traição justificada pela paixão, em cada relação que consome o outro. Quando o amor é Deus, ele se torna uma força cega, que não conhece limites, não respeita a verdade, não se submete à justiça e não se importa com o próximo. Ele é, na verdade, um ídolo cruel.
A teologia correta, "Deus é amor", coloca o amor em seu devido lugar: como um fruto do Espírito Santo:
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver Amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver Amor, nada serei.
E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver Amor, nada disso me aproveitará.
O Amor é paciente, é benigno; o Amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece,
O Amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o Amor, estes três; porém o maior destes é o Amor. 1 Coríntios 13:1,2,3,4,8,13
Todos os vossos atos sejam feitos com Amor”
Que o Senhor Espírito Santo encha nosso coração com amor a Deus e ao próximo. Em nome de Jesus! Amém!

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