DEUS É AMOR, NÃO APENAS AMOROSO
Quando o apóstolo João escreveu as palavras mais simples e mais profundas de toda a Escritura, “Deus é amor” (1 João 4,8), ele não estava fazendo uma afirmação romântica, apenas para sensibilizar. Estava declarando a essência do próprio ser de Deus. Não que Deus tenha amor, como se fosse um atributo entre outros. Mas que Deus é amor na sua própria natureza. O amor não é algo que Ele pratica de vez em quando. É o que Ele é. Isso muda tudo.
Se Deus é amor em sua essência, então cada ato de Deus na história, cada aliança, cada promessa, cada julgamento, cada redenção, é uma expressão desse amor. A criação foi um ato de amor. A lei foi um ato de amor. A encarnação foi o pico mais alto desse amor derramado no tempo e no espaço. E a cruz foi a prova final de que esse amor não tem limites.
Paulo, escrevendo aos coríntios, apresenta Deus com um título que merece meditação demorada: “Pai das misericórdias e Deus de toda consolação” (2 Coríntios 1,3). Essa expressão,”Pai das misericórdias”, carrega a ideia de uma compaixão que vem das entranhas, uma comoção interior profunda diante do sofrimento alheio. Deus não observa a dor humana de longe, como um ser distante e impassível. Ele é movido por ela.
O profeta Jeremias, escrevendo do meio das ruínas de Jerusalém, em um dos momentos mais sombrios da história de Israel, encontrou nessa compaixão de Deus seu único ponto de apoio: “As misericórdias do Senhor não têm fim; as suas compaixões não se esgotam. Renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” (Lamentações 3,22-23)
Há algo extraordinário nessa declaração. Jeremias não estava em um momento de abundância ou de vitória espiritual. Estava entre escombros. E mesmo assim, ele reconheceu que as misericórdias de Deus chegavam frescas a cada amanhecer, como orvalho que cobre o campo, independente de como foi a noite anterior. A compaixão de Deus não se esgota com os nossos fracassos. Ela se renova.
A Bíblia usa duas imagens parentais para revelar a profundidade do amor de Deus, e as duas juntas formam um quadro incomparável.
O Salmo 103 compara o amor de Deus ao de um pai: “Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura, lembra-se de que somos pó.” (Salmos 103,13-14). Há uma ternura aqui que desfaz qualquer imagem de um Deus frio e calculista. Ele sabe do que somos feitos. Ele conhece nossa fragilidade não para nos condenar, mas para ter compaixão.
Mas Isaías traz uma imagem ainda mais intensa. Deus pergunta: “Pode uma mãe esquecer o bebê que amamenta, deixar de ter compaixão do filho que deu à luz? Mesmo que ela o esquecesse, eu não me esqueceria de você!” (Isaías 49,15). A pergunta é retórica, mas a resposta é surpreendente. Porque até o amor materno, que é talvez o mais visceral e instintivo dos amores humanos, pode falhar. Mães podem abandonar filhos. Mas o amor de Deus não conhece esse risco. Ele é mais fiel do que o amor mais fiel que conhecemos.
Essas duas imagens, pai e mãe, não são contraditórias. São complementares. Deus transcende os gêneros, mas usa as melhores expressões do amor humano para aproximar de nós o que é, em última análise, maior do que qualquer analogia pode conter.
Uma das expressões mais ricas de todo o Antigo Testamento é, “amor leal”, ela aparece centenas de vezes nas Escrituras e descreve um amor que é ao mesmo tempo profundamente afetivo e inquebrantavelmente fiel. É o amor de aliança. Um amor que não oscila, não depende das circunstâncias, mas do caráter de quem ama. Aparece mais de 240 vezes no Antigo Testamento e descreve um amor fiel, comprometido, que não depende do merecimento do outro.
O Salmo 136 repete como refrão em todos os seus 26 versículos: “Porque o seu amor leal dura para sempre.” Da criação à libertação do Egito, das vitórias de Israel às provisões no deserto, em cada ato de Deus, o salmista enxerga a mesma realidade subjacente: amor leal. Amor que não vacila. Amor que não envelhece. Amor que atravessa gerações.
Esse “amor leal“ de Deus tem sido demonstrado e ficado evidente fartamente em toda a história da igreja através dos tempos. Isso tem acontecido ao redor do mundo, incluindo o Brasil. O amor leal de Deus é palpável, pode ser comprovado através dos incontáveis testemunhos de milagres curas e bênçãos. É comum ouvir testemunhos de pessoas que chegaram ao fundo do poço, dependência química, depressão profunda, famílias destruídas, com problemas dos mais diversos parecendo insolúveis e encontraram restauração em Deus. Enfim, esse amor se torna concreto na vida das pessoas.
Toda essa linguagem de compaixão e amor leal encontra seu cumprimento histórico em um único momento: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3,16).
Esta é a declaração da Bíblia que traz tremenda esperança. E ainda assim, ela nunca perde sua força. Deus deu. Não emprestou. Não indicou. Não enviou um anjo. Deu o que tinha de mais precioso. E deu por quem? Pelo mundo. Não pelos merecedores. Não pelos que já o amavam. Pelo mundo em sua totalidade, por pecadores, por rebeldes, por pessoas que viviam como se Ele não existisse.
Paulo explica em Romanos 5,8: “Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores.” O amor de Deus não esperou que melhorássemos. Ele se manifestou no exato momento em que éramos menos merecedores. Essa é a lógica da graça, completamente invertida em relação à lógica humana.
Conhecer o amor e a compaixão de Deus não é apenas uma questão teológica. É uma questão transformadora. João, depois de declarar que “Deus é amor”, conclui: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro.” (1 João 4,19). O amor de Deus não foi dado para ser apenas admirado. Foi dado para ser recebido e, ao ser recebido, para transbordar.
A compaixão que Deus tem por nós é o modelo da compaixão que devemos ter uns pelos outros. O perdão que recebemos é a fonte do perdão que podemos oferecer. O amor que renova a manhã após a manhã, mesmo depois das nossas piores noites, é o mesmo amor que nos capacita a acordar e amar novamente.
Deus é amor. E aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios.” Salmo 103,2
Que possamos, como o salmista, declarar: “Quão preciosa é a tua misericórdia, ó Deus!” (Salmos 36:7). E que, diariamente, vivamos na certeza de que somos amados não por merecimento, mas pela graça fiel do Pai que nunca nos esquece. Esse amor transforma vidas, restaura famílias, renova igrejas e, ultimamente, aponta para a esperança da eternidade, onde “Deus enxugará toda lágrima dos olhos” (Apocalipse 21:4).
Amém !

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