Perseverar para Receber a Promessa
“³⁶ Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. ³⁷ Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará; ³⁸ todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma.³⁹ Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma.” Hebreus 10:36-39 |
O público original, os israelitas no deserto, enfrentou cv a perseguição e a tentação de “ retroceder“ a antiga aliança em busca de segurança. Obediência e espera andam de mãos dadas; fazer a vontade de Deus exige atravessar períodos de provação desagradáveis, desertos, ou dolorosos.
Existe um intervalo na vida cristã que quase ninguém menciona nos testemunhos: o espaço entre a obediência e o cumprimento da promessa. Entre o dia em que dizemos "sim" a Deus e o dia em que vemos o resultado, há uma estrada. Essa estrada tem nome na Bíblia: perseverança.
O autor de Hebreus não escreve para pessoas confortáveis. Ele escreve para crentes que já haviam sido insultados publicamente, que tiveram seus bens confiscados e que conheceram a prisão (Hb 10:32-34). Eles não eram iniciantes. Eram gente que já tinha pagado um preço. E é justamente a eles que o autor diz: "Vocês precisam perseverar."
Perseverar não é uma opção
Repare na palavra: "precisam". Não é "seria bom", nem "se tiverem vontade". Perseverar é uma necessidade, como o ar para quem mergulha.
Não se trata de uma paciência passiva, de quem cruza os braços e espera. Ela fala de permanecer debaixo do peso, de quem continua firme mesmo com a carga sobre os ombros. É a postura do soldado que não abandona o posto e do atleta que não sai da pista no meio da prova.
O público original estava tentado a recuar. A pressão era grande, e voltar ao antigo sistema religioso parecia mais seguro e menos custoso. Hoje a tentação tem outros rostos: abandonar a igreja, esfriar na oração, desistir do chamado ou deixar de crer que Deus ainda age. Mas a Palavra permanece: precisam perseverar
Hebreus 10:36 tem uma sequência que não podemos inverter: primeiro fazer a vontade de Deus, depois receber a promessa, e entre as duas, perseverar.
Muitos querem a promessa sem a travessia. Mas a Bíblia mostra que obedecer e esperar caminham de mãos dadas. Fazer a vontade de Deus nem sempre traz resultados imediatos. Às vezes traz silêncio, oposição, demora e dor. Ainda assim, o texto garante que a promessa existe e que será recebida por quem não desistir no caminho.
Poucos personagens ilustram isso tão bem quanto Abraão. Deus prometeu a ele uma descendência numerosa quando ele já tinha 75 anos e Sara era estéril. Ele obedeceu, saiu da sua terra sem saber para onde ia (Hb 11:8) e depois esperou. Foram vinte e cinco anos entre a promessa e o nascimento de Isaque.
Nesse intervalo houve dúvida e houve tentativas humanas de "ajudar" Deus, como o episódio de Agar e Ismael. Houve dias em que a promessa parecia absurda. Mesmo assim, Romanos 4:20 diz que Abraão "não duvidou nem foi incrédulo diante da promessa de Deus, mas foi fortalecido na fé". E o próprio autor de Hebreus conclui: "Assim, depois de esperar com paciência, Abraão obteve a promessa" (Hb 6:15).
Abraão não recebeu pela pressa. Recebeu porque continuou confiando. A demora não foi esquecimento de Deus. Foi o tempo em que a fé dele foi formada.
Pense em quem planta. O agricultor lança a semente na terra e, durante semanas, não vê nada. Olhando para o chão, tudo parece igual ao dia do plantio. Mas debaixo da terra, onde ninguém enxerga, a raiz está crescendo.
Se ele desenterrar a semente a cada semana para conferir, vai destruir a colheita. O lavrador sabe que o processo tem tempo certo e que seu trabalho é cuidar, esperar e confiar. Tiago 5:7 usa essa mesma imagem: "Vejam como o lavrador espera pelo precioso fruto da terra e aguarda com paciência."
Quantas vezes estamos no "tempo debaixo da terra": orando por um filho que parece distante, por um casamento que precisa de cura, por uma porta que não abre, por uma enfermidade que persiste. Nada parece mudar. Mas Deus trabalha onde os olhos não alcançam, e a ausência de resultado visível não significa ausência de ação divina.
Perseverança sem fé vira teimosia, e fé sem perseverança vira entusiasmo passageiro. O texto de Hebreus une as duas coisas. Nos versículos seguintes, o autor cita Habacuque: "O meu justo viverá pela fé; mas, se retroceder, nele não me agradarei" (Hb 10:38).
Ele então faz uma separação clara entre dois grupos: os que retrocedem e se perdem, e os que creem e preservam a alma (Hb 10:39). O verdadeiro crente não é quem nunca sente medo, mas quem não deixa o medo decidir o seu caminho.
Fé, nesse contexto, significa confiar que Deus tem propósito na demora. Significa crer que Ele é fiel à sua palavra mesmo quando as circunstâncias gritam o contrário. O versículo 37 reforça isso: "Pois em breve, muito em breve, aquele que vem virá, e não demorará." A nossa espera tem um fim garantido, porque Cristo voltará e a recompensa é certa.
Talvez você esteja cansado. Talvez já tenha orado muitas vezes pela mesma causa e pensado em desistir. Saiba que o autor de Hebreus conhecia esse cansaço e por isso escreveu. Ele não repreende os cansados. Ele os encoraja: "Não abandonem a confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada" (Hb 10:35).
Deus não despreza o esforço de quem permanece. Cada oração feita na dor, cada culto frequentado no meio da luta e cada dia de fidelidade em segredo são vistos por Ele. Nada se perde diante do Pai.
Hebreus 10:36 nos chama a uma fé que permanece. Não uma fé que só aparece nos dias bons, mas uma fé que atravessa o vale com os olhos em Cristo, o autor e consumador da nossa fé (Hb 12:2).
Se você está no intervalo entre a obediência e a promessa, não recue. Lembre-se de Abraão, que esperou e viu o cumprimento. Lembre-se do lavrador, que confia na semente que ainda não brotou. E, acima de tudo, lembre-se de que quem prometeu é fiel.
Continue. Persevere. A promessa está a caminho, e Aquele que vem não tardará.
Amém!
Lúcio Barreto pai é pastor e professor pós-graduado em Teoria da Literatura pela UFMG. Acesse o seu blog pessoal para ver outros conteúdos: https://luciobarretopai.blogspot.com/

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