Não esqueça o que Deus já fez.
Quando estamos sofrendo, tendemos a enxergar apenas o momento presente. Nossa percepção se estreita e experimentamos o desespero. E, nesse contexto, ficar esperando passivamente que algo aconteça parece muito inútil.
Vivemos em uma época de imediatismo. Queremos respostas instantâneas, soluções rápidas e alívio imediato para nossas dores. Quando o sofrimento nos alcança, seja através de uma doença, uma crise financeira, um relacionamento rompido ou uma perda irreparável, nossa tendência natural é nos concentrarmos exclusivamente no momento presente. A dor tem o poder de estreitar nossa percepção, como se o mundo inteiro se reduzisse àquela circunstância angustiante. Nesse estado, a ideia de "esperar" parece quase insultante. Como ficar parado quando tudo dentro de nós clama por ação?
A boa notícia é que Isaías 40:31 não está falando de espera passiva, mas de uma maneira diferente de ver o mundo, uma expansão da nossa percepção através da memória. Ao nos orientar a esperar especificamente por Deus, percebemos que a resolução ou o alívio da tensão que antecipamos só se encontra em Deus.
Isaías 40:31 trás um visão espiritual: "Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão." A palavra hebraica traduzida como "esperar" aqui é qavah, e seu significado vai muito além da passividade. Trata-se de uma espera ativa, enraizada na memória e na confiança. É sobre recordar quem Deus foi no passado para confiar em quem Ele será no futuro.
O Verdadeiro significado de esperar no versículo de Isaías, não é a espera de quem desistiu, mas de quem aguarda com expectativa, com os olhos fixos na promessa. É a espera do agricultor que plantou a semente e confia na colheita futura, mesmo quando o campo parece árido. É a espera do navegador que, em meio à tempestade, confia nas estrelas que o guiarão para casa.
Quando Isaías escreve ao povo de Israel, ele está se dirigindo a uma nação exausta. O povo havia enfrentado o exílio, a destruição do templo, a perda de sua identidade nacional. Eles estavam cansados, desanimados, e a tentação de acreditar que Deus os havia abandonado era constante. Nesse contexto, o profeta não os exorta a simplesmente "aguentar firme". Ele os convida a lembrar. A lembrar da criação, quando Deus formou os céus e a terra com uma palavra. A lembrar do êxodo, quando Deus abriu o mar Vermelho e libertou Seu povo da escravidão. A lembrar de como Deus sempre foi fiel, mesmo quando o povo era infiel
A memória é um poderoso antídoto contra o desespero, contra a exaustão. Quando estamos sofrendo, nossa visão de mundo se estreita. Esquecemos as vezes em que Deus nos sustentou no passado. Esquecemos as orações respondidas, as portas abertas, as provisões inesperadas. A dor tem uma capacidade cruel de apagar nossa história com Deus, deixando-nos presos em um presente que parece insuportável.
É por isso que a Bíblia está constantemente nos chamando a lembrar. Em Deuteronômio 8:2, Moisés diz ao povo: "Lembra-te de todo o caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou estes quarenta anos no deserto." Em Salmos 77:11, o salmista declara: "Lembrar-me-ei das obras do Senhor; sim, lembrar-me-ei das tuas maravilhas de outrora." A memória não é apenas um exercício nostálgico; é um ato de fé. É dizer a si mesmo: "Deus foi fiel antes, e Ele será fiel novamente."
Considere a jornada de Israel no deserto. Eles haviam sido libertos da escravidão no Egito, testemunhado as dez pragas, atravessado o mar Vermelho a pé enxuto. No entanto, quando enfrentaram a fome e a sede no deserto, rapidamente esqueceram. "Não há pão? Não há água? Por que nos trouxeste a este deserto?" (Êxodo 16:3). A memória do que Deus havia feito foi sufocada pela ansiedade do momento presente. No entanto, Deus, em Sua misericórdia, continuou a prover: maná do céu, água da rocha, orientação dia e noite. Cada milagre era um convite à lembrança, uma oportunidade de renovar a confiança.
Corrie ten Boom, uma cristã holandesa que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, escreveu em seu livro O Refúgio Secreto sobre a importância de lembrar. Em meio ao horror do campo de Ravensbrück, ela e sua irmã Betsie oravam e agradeciam a Deus até pelas coisas mais simples, como o fato de terem conseguido esconder uma Bíblia. Corrie aprendeu que a gratidão e a memória eram armas espirituais. "A memória é o diário que todos carregamos conosco", escreveu ela. Ao recordar as vezes em que Deus havia sido fiel, ela encontrava força para o dia seguinte.
Esperar é Confiar na Fidelidade de Deus. Esperar no Senhor, portanto, não é uma questão de ficar sentado, mas de olhar para trás com gratidão e para frente com esperança. É reconhecer que Deus, que agiu no passado, continua a agir no presente e agirá no futuro. A espera bíblica é uma postura de confiança ativa, que se alimenta da memória e se expressa em adoração.
Quando Isaías diz que os que esperam "subirão com asas como águias", ele está descrevendo uma transformação de perspectiva. A águia não voa baixo; ela se eleva acima das tempestades. Da mesma forma, aquele que espera em Deus é capacitado a ver sua situação de um ponto de vista mais elevado. A dor não desaparece, mas é colocada em perspectiva à luz da fidelidade de Deus.
O profeta Isaías, ao escrever esse capítulo, está profundamente enraizado na Torá. Ele medita nas histórias da criação e do êxodo, e convida o povo a fazer o mesmo. A meditação na Palavra de Deus é essencial para a renovação da esperança. É através das Escrituras que somos lembrados das obras de Deus, e é através da meditação que essas obras se tornam vivas em nossa experiência.
O Salmo 1 descreve o homem bem-aventurado como aquele que "medita na lei do Senhor de dia e de noite". Essa meditação não é um exercício intelectual, mas uma imersão na história de Deus com Seu povo. É permitir que a narrativa bíblica molde nossa imaginação e nossa percepção da realidade. Quando meditamos nas Escrituras, somos capacitados a ver nossa própria história à luz da história de Deus.
Em momentos de sofrimento, somos tentados a acreditar que Deus se esqueceu de nós. Nossa visão se estreita, e a esperança parece uma ilusão. No entanto, Isaías 40:31 nos chama a uma espera diferente, uma espera que se alimenta da memória, que confia na fidelidade de Deus e que se expressa em adoração.
Esperar no Senhor é lembrar. É recordar as vezes em que Ele nos sustentou, nos guiou e nos livrou. É confiar que, assim como Ele agiu no passado, Ele agirá novamente. É elevar nossa visão acima das circunstâncias e descansar na certeza de que Deus foi fiel no passado e continua assim.
Portanto, quando a exaustão vier, não se deixe levar pelo desespero. Volte-se para a memória. Lembre-se das obras de Deus em sua vida e na história do Seu povo. Deixe que a lembrança renove sua esperança e restaure suas forças. Pois aqueles que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão.
Portanto, lembremo-nos do que Jesus fez por nós na cruz e não é agora que Ele vai nos abandonar.
Amém!
Lúcio Barreto pai é pastor e professor pós-graduado em Teoria da Literatura pela UFMG. Acesse o seu blog para ver outros conteúdos
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